Democracia

Existe, na sociedade portuguesa, quem diga que a democracia não presta, e que o melhor regime é a ditadura. Descobri hoje a primeira pessoa da minha geração—da minha idade, mais concretamente—que partilha esse ponto de vista. E isso inspirou-me para escrever o porquê de eu dedicar uma parte considerável do meu tempo a pensar sobre política e temas afins.

Quem me conhece dos tempos do secundário, sabe que eu sempre nutri muito pouco (para não dizer mesmo nenhum) afecto pelas “humanidades” em geral, política e temas afins incluídos. E para dizer a verdade, esse continua a ser o caso. Mas então, para quê perder tempo a pensar sobre isso? Porque esse é o único modo de saber avaliar as decisões que depois nos afectam, e de estar em condições de lutar por decisões que nos beneficiem. A democracia não é um sistema onde magicamente desaparecem os conflitos de interesse. Estes existem sempre: o que distingue a democracia é que o critério para decidir entre várias alternativas é, regra geral, o benefício da maioria. O que não acontece numa ditadura—nem, e esta é a parte importante, numa “democracia” em que a maioria do povo se resigna a ir votar de 4 em 4 anos. Ou às vezes nem isso, preferindo antes agarrar no refilofone e trautear alguma variação de “eles (políticos) são todos iguais”. Esta é a razão pela qual eu “perco tempo” a pensar sobre isto. Porque a democracia ou é participativa, ou não é democracia. Como dizia um político irlandês de tempo idos (ênfase minha),

It is the common fate of the indolent to see their rights become a prey to the active. The condition upon which God hath given liberty to man is eternal vigilance; which condition if he break, servitude is at once the consequence of his crime and the punishment of his guilt.

Mas então, se a democracia dá tanto trabalho, porque não acabar com ela de vez, e trazer de volta os regimes mais autoritários? Para muitos a resposta será tão óbvia que escrevê-la não seria nada a não ser supérfluo. Para mim, é razão para um outro post.

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