Enrascados

Tencionava escrever sobre o protesto da chamada geração à rasca, mas revejo-me neste post do Que Treta!. Deixo alguns excertos:

Isto [o protesto] é demasiado vago. A situação é má e compreende-se que as pessoas protestem, mas este protesto não é um exercício responsável de cidadania nem é particularmente útil. Pelo contrário. Por um lado, porque dá a quem se manifesta a sensação de ter cumprido o seu dever democrático, quando o dever democrático de cada um é mais do que apenas dizer “au” quando o pisam. Exige ter uma ideia clara do problema e das soluções que se quer tentar, e este problema da precariedade dos empregos e dos salários baixos não é algo que se possa resolver directamente legislando. Temo que muitos, após o desabafo do protesto, voltem a votar como sempre votaram antes.

[…]

Esta crise que vivemos foi, principalmente, causada pelos ricos. Ricos, no sentido estrito de quem tem balúrdios de dinheiro. E que, com a crise, ficaram ainda mais ricos. Muito mais ricos. Por exemplo, o Américo Amorim ganhou 800 milhões de euros em 2010 só pela valorização da Galp (1). Não por se ter trabalhado o mesmo que vinte mil trabalhadores portugueses, mas porque a desregulação do mercado de futuros em mercadorias como o petróleo permitiu a quem já tinha muito dinheiro apostar na subida dos preços e, com isso, fazer subir os preços e ganhar a aposta (2). Esta especulação financeira é um jogo viciado que beneficia quem tem muito à custa de todos os outros. E mesmo quando espalham nas apostas, como aconteceu por cá com o BPN, depois vão buscar dinheiro aos contribuintes.

[…]

Assim, é este o meu protesto: exijo a reposição, e reforço, das prestações sociais e dos apoios aos que mais precisam, e que se aumente os impostos, de forma progressiva, tanto quanto for necessário para reduzir o défice e estabilizar as finanças do Estado. Não tenho nada contra os ricos, mas sou contra que enriqueçam à custa dos outros. E se não os obrigamos a pagar pelas aldrabices que têm feito vão continuar a fazer o mesmo. Quanto à precariedade do emprego e aos salários, que preocupa tanta gente, isso é consequência da falta de apoio social. Quanto menos se pode contar com o Estado, menos poder se tem para negociar condições de trabalho. Quando a escolha é entre trabalhar e passar fome, até a pão e laranjas se arranja empregados.

Tenho algumas reticências quando se diz que a “precariedade do emprego e aos salários, que preocupa tanta gente, isso é consequência da falta de apoio social.” Acho que a situação é mais complexa do que isto, mas esta discussão terá que ficar para outro post.

Links:

1- Geração enrascada, Manifesto.
2- Stop gambling on hunger, Experts on excessive commodity speculation
EDIT: este post também contém links para muita coisa que convém saber para deixar de engolir as tretas do costume…

7 responses to “Enrascados

  1. Eu também acho muito bem que se proteste, mas repara que os protestos nunca são um fim em si, mas antes um meio para um fim. E o grande problema da manifestação de ontem é que para além de uns vagos “queremos melhores salários” e “queremos melhores empregos”, ninguém sabe para que tipo de sociedade devemos caminhar para atingir esses fins. Pior, não só ninguém (ou quase ninguém) sabe, como ninguém (ou quase) parece *querer saber*. Não basta apontar o objectivo, é preciso saber apontar o caminho. As manifestações funcionam muito bem quando o caminho é mais ou menos óbvio (caso das manifestações sucessivas no médio oriente, em que o objectivo é livrarem-se dos déspotas que por lá têm, e o caminho é exigir uma troca de regime, com eleições livres—grosso modo). Agora quando o caminho tem que passar por mudar profundamente a distribuição da riqueza e dos recursos que temos, ir para a rua exigir maiores salários não vai ajudar muito. Houvesse uma manifestação para exigir (por exemplo) o fim do monopólio da banca na criação de dinheiro (ou dito de outro modo, que o estado pudesse injectar dinheiro na economia sem incorrer no pagamento de juros), eu era o primeiro a ir. Não resolvia os problemas todos, mas era uma ajuda grande. Mas o que aconteceu ontem foi um protesto “contra o sistema”, sem apresentar qualquer alternativa. E se bem que houve (e há) muitas razões para tal protesto, eu não me revejo nele.

  2. bem, mas as manifestações não servem para tentar encontrar soluções. para isso servem os debates na assembleia, acho eu… (ou pelo menos deviam, é para isso que os políticos são pagos). agora o que é certo é que a manifestação de sábado, a canção dos deolinda, os homens da luta, etc. estão a chamar a abordar um problema que já se vem a arrastar há imenso tempo e em a que pouca atenção se tem dado.

    além disso estás enganado, além dos vagos “queremos melhores salários” houve protestos bem concretos contra por exemplo os falsos recibos verdes e os estágios não pagos. o povo que saiu à rua pode não saber para que sociedade caminhar (tal como os políticos, parece-me) mas sabe bem com o que é que está descontente.

  3. Tens razão em relação aos falsos recibos e aos estágios não remunerados: isso devia ser simplesmente proibido. Aliás, existem várias medidas concretas que podiam e deviam ser tomadas—extinção das 500 mil fundações e institutos 100% dependentes do OE, extinção dos governos civis, etc—às quais o governo tem feito ouvidos de mercador…
    Mas o problema destas manifestações “porque o povo está descontente” é que permitem que o governo desvie o foco da questão. Exemplo perfeito disto viu-se ontem às 20h00 na tv: o povo manifesta-se porque está descontente, e o PM reitera a retórica do “sim isto mau, mas é pelo interesse do País!”. Manifestações genéricas vão dar respostas genéricas—e destas, todos andamos mais do que fartos.

    é para isso [encontrar soluções] que os políticos são pagos

    Sim, mas a história recente das democracias ocidentais tem mostrado que é preciso bem mais do que isso. É infeliz, mas esse parece ser o verdadeiro preço da liberdade…

    o que é certo é que a manifestação de sábado, a canção dos deolinda, os homens da luta, etc. estão a chamar a abordar um problema que já se vem a arrastar há imenso tempo e em a que pouca atenção se tem dado.

    Não percebo como podes dizer que “pouca atenção se tem dado” ao sarilho em que nos encontramos. Atenção não tem faltado. Faltam é soluções que não recorram sempre aos mesmos, e sempre para benefício dos outros mesmos…

    Resumindo, acho que a manifestação teve valor (é melhor do que nada), mas muito menos do que o valor que (creio eu) lhe atribuem a maior parte dos participantes.

  4. Porque como expliquei acima, para além de não me rever nessa manifestação, se todos ficam a pensar que ela vale muito mais do que realmente vale, então pior a emenda que o soneto: isso significa que de futuro, pouco mais se fará do que outras acções destas (porque toda a gente pensa que servem de muito). E enquanto isso durar, não muda nada (ou muda pouco) porque 1) quem manda vai continuar a dizer que “não há alternativa”; e 2) depois disso, vai haver mais manifestações destas, o que leva de volta a 1).

    Como esta manifestação mostrou, o luso problema não é falta de vontade de caminhar, mas sim falta de rumo. Mas se a moda pega, toda a gente fica a achar que querer caminhar equivale a saber para onde ir. O que é uma bela duma treta, que não leva a lado nenhum…

    Não me interpretes mal, eu percebo o entusiasmo, e partilho de muito do mesmo. Mas se se dá às coisas o valor que elas não têm, a única coisa que se consegue é a auto-ilusão. E a história demasiadas vezes mostrou os perigos desta última.

  5. Concordo com o gauthma. Os protestos foram tão genéricos e as várias manifestações tão ‘estranhas’ que pareciam grandes festarolas. :-S

    Em muitas festas da Associação de Estudantes tivemos um ambiente semelhante, sem pão e queijo, é verdade.

    Veja-se o protesto dos professores deste fim de semana, ou dos camionistas estes últimos dias, eles lutavam por algo em concreto, e os camionistas conseguiram mesmo uma redução nas portagens.

    Há entusiasmo, mas não há direcção a tomar, logo o objectivo anula-se por si mesmo.

    E paro por aqui porque só teria coisas terríveis a dizer. lol.🙂