Sobre a Universidade

Embora escritos na língua inglesa, já aqui escrevi sobre o papel e a função das Universidades, bem como sobre a minha própria experiência enquanto aluno da Universidade de Coimbra. Não tenciono aqui alongar-me sobre a última, mas sobre as primeiras, existem dois artigos do De Rerum Natura, que vale a pena mencionar. O primeiro, “Investigação: construção do saber”, explica como nas nossas universidades, é dada demasiada ênfase ao ensino. Desse artigo:

Um outro autor, o matemático João Queiró (in “A Universidade Portuguesa – Uma Reflexão”, Gradiva, 1995) disse o mesmo por outras palavras:

“A universidade é um sítio onde se estuda. Não é um sítio onde se ensina, muito menos um sítio onde se avalia, muito menos ainda um sítio onde se passam diplomas.”

Essa função primordial da universidade não é nova. Foi enunciada pelo alemão Alexander von Humboldt no século XIX: a universidade serve, em primeiro lugar, para investigar, serve para disseminar cultura e serve, ainda, para ensinar. Esta missão plural da universidade contrasta com a função exclusiva de formação profissional, que prevaleceu na Idade Média quando as faculdades principais eram Teologia, Cânones (Direito Canónico), Leis e Medicina. Modernamente acrescenta-se à trilogia de Humboldt a prestação de serviços à comunidade, a qual nem sempre se faz sem prejuízo da criação de saber ou da difusão de cultura.

O segundo, “A obrigação dos professores é ensinar”, surge no seguimento do anterior. Se a função da Universidade é primeiro investigar, e só depois ensinar, o mesmo se aplicará ao respectivo corpo docente. O problema surge quando (talvez derivado do (ab)uso do nome) a função dos professores é vista como sendo primariamente o ensino. É natural então seguirem-se críticas dos alunos de que o que lhes é ensinado “não tem nada a ver com a realidade” (vulgo, “não serve para nada”, muitas vezes com a implicação tácita que o estão a aprender não será um trunfo quando, findo o curso, forem procurar o primeiro emprego). Mas nunca foi função das universidades garantir a empregabilidade dos formandos. O parágrafo que explica isto será talvez, o importante de todo o artigo:

A garantia de saídas profissionais para os cursos superiores, que nunca foi uma incumbência da instituição universitária desde os tempos medievos até à actualidade (as faculdades não são agências de emprego), tornou-se nos dias de hoje uma espécie de obrigação moral para as universidades de todo o mundo. Julgo que nenhuma faculdade do nosso país se alheou da questão e, dentro das suas possibilidades (que são escassas, porque a universidade portuguesa nunca teve poder de decisão a nível económico e nos últimos quinze anos perdeu boa parte de influência que historicamente sempre exerceu junto dos políticos), todas tentam garantir um futuro profissional digno para os seus licenciados. Mas, convenhamos, a tarefa não é fácil, pois a frágil economia portuguesa não garante a existência de um grande número de postos de trabalho destinado aos especialistas universitários, bastando duas ou três licenciaturas para esgotar as carências momentâneas existentes num determinado sector. Reaparecem, então, as notícias nos jornais sobre os «doutores no desemprego».

Como expliquei noutro sítio, as universidades deviam formar primariamente investigadores, em vez de funcionarem como escolas de formação profissional, cenário que é infelizmente, cada vez mais comum. A preocupação dos alunos de estarem a aprender coisas que não lhes vão “servir para nada” seria legítima numa escola cujo objectivo é a preparação dos seus alunos para o exercício de uma profissão em concreto. Mas não numa universidade, pois o contexto em que esta funciona (ou devia funcionar…) é diferente. É desprovida de sentido a comparação entre quem se decida a alargar as fronteiras do conhecimento, e quem quer exercer uma profissão, no sentido mais comum do termo. A percepção, errada, de que a primeira é “mais desejável” (expressão que muitas vezes tem uma única interpretação: garantia de melhores salários) do que a segunda, é a verdadeira causa que fez disparar os números de alunos que frequentam universidades. E como nenhuma economia sustentável pode ter a maioria da população activa como investigadores—porque sendo certo que estes contribuem para a criação de riqueza, fazem-no quase sempre no longo prazo, e raramente no curto ou médio(*)—eis que se acaba com um país em que alunos da universidade se queixam do que lhes ensinam, os professores se queixam da falta da mais elementar vontade de aprender dos alunos, e a conjugação dos dois anteriores contribui para a transformação—lenta mas inexorável, com a lentidão a servir de cobertura para a vergonha—da universidade numa escola profissional. E enquanto isso, a massa anónima de licenciados formados fica, terminada a formação, com a árdua tarefa de perceber que o que lhe foi ensinado, não é grande ajuda para o exercício de uma profissão(§), e que tem duas opções: ou se adapta, ou passa a ser (mais) um «doutor no desemprego».

*Há excepções, entre as quais se contam, por exemplo a informática, a medicina, …
§Também aqui me ocorrem duas excepções: medicina e farmácia. Mas são isso mesmo: excepções, e não a regra.

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