O paraíso (das auto-estradas)

Quando eu era miúdo, e vivia longe da metrópole que é Lisboa, cada vez que lá ia ficava sempre impressionado com a quantidade de auto-estradas que havia. Chegava a ser incomodativo: de cada vez que era preciso ir a parte alguma, lá se ia para a “auto-estrada”. É claro que na altura, eu apelidava de “auto-estrada” tudo o que tivesse mais do que uma via para cada sentido. E no entanto…

Volvidas quase duas décadas, é-me enviada esta maravilha:

[…] o Eurostat revela que Portugal é dos países da Europa com mais auto-estradas por habitante e densidade geográfica; e que a região de Lisboa e Vale do Tejo é a “campeã” da União Europeia neste item, convém parar para reflectir.

Os valores em causa para esse “item” são mostrados aqui.

Inspirado por estes dados, uma rápida google search revela que, entre autoestradas projectadas e construídas, Portugal tem nada mais nada menos do que 47 autoestradas! Nesta entrada na Wikipedia lê-se o seguinte:

During the 1990s and early 2000s, Portugal was the country with the greatest development in the motorway network in the European Union. It had 316 km of motorways in 1990 and the number increased to 1242 km by 1999 and 2100 by the end of 2007.

Não me interpretem mal. Muitas das autoestradas eram investimentos necessários para o país. Mas quando se chega ao cúmulo de ter várias … ehem, autoestradas com (literalmente!) meia dúzia de quilómetros (ou menos), talvez seja mesmo chegada a hora de parar para reflectir. Se a tanta autoestrada juntarmos a treta dos chips nas matrículas do automóveis, qualquer dia estamos a pagar portagens sempre que se andar de carro.

Muitas das autoestradas “de palmo e meio” são construídas com o objectivo de retirar trânsito ao centro das cidades. E é uma boa ideia, se não for levada ao extremo. Porque no extremo, está-se a incentivar a que mais gente leve o carro para o meio das cidades, porque agora já há melhores vias. Quando o que se devia incentivar era precisamente o contrário. Uma muito melhor maneira de diminuir o trânsito dentro das cidades, é criar alternativas ao transporte privado, das periferias, ou zonas residenciais para o centro das cidades. Mas na estrada tanto anda o transporte público como anda o carro. As linhas de comboio por sua vez já não padecem deste mal. Não estou a dizer que os comboios sejam a solução milagrosa, mas quando se chega a construir autoestradas de 5km…

Dá ideia que José Sócrates olha para as autoestradas como olhou para o Magalhães: quanto mais, e mais depressa, melhor. Mas tal como os computadores não são uma solução milagrosa para o ensino, do mesmo modo as autoestradas não são uma solução mágica para o desenvolvimento do país. No ensino, os computadores podem ser uma ferramenta valiosa, se usados como parte de uma estratégia bem definida. E na muito almejada estratégia para desenvolver o país, as autoestradas estão na mesma situação. Tendo em conta o número delas, já era bem altura de expandir os horizontes para lá do asfalto.

Agradeço ao Pedro Marques o ter-me enviado os links para o artigo do Expresso, e para a imagem

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