Criacionismo

Acabei de chegar desta palestra: “Evolucionismo vs Criacionismo“. O meu objectivo em ir ver esta palestra era ir tentar conhecer melhor o que é o “criacionismo”, porque de cada vez que tentava ler coisas sobre isso na net, só via disparate incongruente. A minha opinião depois de ter visto a palestra, é que o criacionismo são um monte de disparates incongruentes (e tenham em conta que é um católico que vos diz isto). Pelo menos eu não disponho de outro modo de classificar afirmações como “o universo tem alguns milhares de anos”, que essencialmente é o mesmo que dizer que toda a física desenvolvida no último século está errada. Afirmações deste calibre exigem provas do mesmo calibre, e dessas eu não vi nenhumas. Isto remete o criacionismo para a área do disparate (ou se quisermos ser politicamente correctos, pseudo-ciência). É incongruente porque ao mesmo tempo que diz isto, também se afirmou que o criacionismo não contradiz as leis da física, e que Deus criou o mundo segundo um conjunto de leis para que os homens as possam entender. Não é possível ser-se mais incongruente do que isto.

Na sessão de perguntas que se seguiu ao debate, perguntei ao Professor Jónatas Machado, representante do criacionismo, duas coisas:

  • como é que explicava “remendos evolutivos”, viz. o polegar do panda;
  • se considerava o criacionismo refutável (como qualquer teoria dita científica tem que ser), e se esse fosse o caso, que implicações teria para a religião se algum dia fosse possível refutar o criacionismo.

Não obtive resposta para a segunda, e acerca da primeira, a resposta foi que actualmente se está a descobrir que afinal muitos desses “remendos” até constituem afinal, muito boas soluções (sem mais detalhes, mas também devo dizer que o tempo não era muito). Ainda tentei perguntar qual a função do apêndice humano, mas já tinha acabado o “tempo de antena”. Começo a perceber o porquê disto:

In general, however, Dawkins has followed the advice of his late colleague Stephen Jay Gould and refused to participate in formal debates with creationists because doing so would give them the “oxygen of respectability” they crave. He suggests that creationists “don’t mind being beaten in an argument. What matters is that we give them recognition by bothering to argue with them in public.”

5 responses to “Criacionismo

  1. Pode, à primeira vista, parecer engraçado que eu critique uma “teoria” que se pretende que seja tomada como alternativa à teoria da evolução, utilizando a física! No entanto, isto é mais uma forma de mostrar que o criacionismo é uma espécie de “teoria de tudo” … que lá no fundo não explica nada. Faz “previsões” do género “a evolução nunca explicará a origem da informação”. Previsões *concretas*, que se possam testar, essas nem vê-las. Diz que o universo tem uns meros milhares de anos sem explicar nem porquê (porque está escrito na Bíblia não é razão!), nem porque é que todas as interpretações dos factos que nos dizem que o universo é muito mais velho (a tal física do século XX), estão errados.

    Se o vídeo da palestra for disponibilizado online, terei o maior gosto em desmembrar toda a argumentação criacionista. Até lá, aqui fica o link do Ludwig Krippahl, o “representante” da evolução: link.

  2. Agora que relia o meu próprio comentário, acabei de reparar que «universo tem uns meros milhares de anos» pode ser encarado como uma espécie de previsão. Prevê, num sentido muito estrito do termo, que o universo tem a idade dos tais «meros milhares de anos». Tanto quanto se consegue observar, essa previsão total e completamente errada. Devemos portanto rejeitar o criacionismo.
    É claro que um criacionista chegado a este ponto, irá argumentar que ninguém conhece a idade do universo, que tudo se baseia em cálculos e teorias… É verdade, as estimativas que temos da idade do universo vêm por meio indirecto. A razão pela qual esses cálculos têm credibilidade advém do facto de as teorias utilizadas já terem sido testadas, e testadas, e as previsões que fizeram foram correctas. Daí que quando se aplicam essas teorias para tentar calcular a idade do universo, tem-se alguma confiança no resultado, porque já fizeram outras previsões que se confirmaram. Uma coisa que o Jónatas Machado parece não entender é que, quando se substitui uma teoria por outra, a nova teoria tem que explicar tudo o a anterior explicava, e mais ainda! Por isso sim as teorias actuais podem estar erradas, mas uma teoria vindoura que diga que o universo tem milhares de anos de idade implicará que as próprias bases sobre as quais se edificou o mundo tecnológico de hoje estão completamente erradas: um cenário não muito provável…)

  3. Pois é, meu caro amigo, parece que ambos partilhamos da mesma opinião, não fossemos feitos da mesma cepa científica…
    Parece-me a mim, na minha modesta opinião, reduzir a evolução a um problema da biologia. Claro que a teoria partiu da análise evolutiva de animais e plantas, mas as outras áreas da ciência não têm nada a dizer sobre isto?

    Um dos aspectos-base do criacionismo é que o Universo foi feito para usufruto e compreensão da mente humana. Então porque vamos compreendendo o Universo aos poucos, cada vez mais um bocadinho, construindo teorias e reformulando-as sempre que se mostram desadequadas? Podem dizer os criacionistas que Deus criou o Mundo de tal maneira que acaba por ser inteligível devido à própria omnipotência do Criador. Já nem vou perguntar pela tal pedra muito pesada… Mas se vamos construindo teorias e descobrindo como o Universo funciona isso não pode ser por causa da própria evolução geracional do cérebro humano (se 2500 anos servirem para a estatística)? Deixo a minha pergunta…

    Outro aspecto a corroborar a evolução, parece-me a mim, é de não estarmos a falar só de inteligência, ou seja, fisicamente também há evolução! O Homem desenvolveu-se intelectualmente em detrimento de outras características que nos tornam toscos em relação a outros animais! Não somos capazes de correr a mais de 30 km/h, não voamos, não conseguimos nadar de baixo de água mais que 3 minutos, sofremos muito com o calor e com o frio, enfim… somos toscos.

    Por último, dizer que a Bíblia encerra as maiores verdades da Humanidade não só é tonto como é idiota! Nunca os comentadores da Bíblia a consideraram à letra, e desafio quem quiser a apontar-me um nome que a considerasse como tal (à excepção óbvia do Prof. Jónatas Machado).

    E mais não digo, preciso de pensar mais sobre isto tudo…

    Grande abraço.

  4. Epá só vi as respostas agora (been busy…)

    Mónica, andas a ficar repetitiva! Assim perdes a piada😛

    Marcelo,

    Mas se vamos construindo teorias e descobrindo como o Universo funciona isso não pode ser por causa da própria evolução geracional do cérebro humano (se 2500 anos servirem para a estatística)? Deixo a minha pergunta…

    O problema com este tipo de argumentação é que os criacionistas podem sempre dizer que isso está completamente errado porque ninguém viu a evolução, enquanto que a Bíblia diz que Deus criou o mundo assim e o homem assado, e portanto é verdade. Isto faz-me lembrar do que dizia Carl Sagan: “Nós (humanos) somos como borboletas que esvoaçam durante um dia e julgam que é para sempre”. É de facto complicado entender as escalas temporais em que acontecem fenómenos como a evolução. O ponto comum na argumentação criacionista parece ser: encontrar falhas nas teorias existentes, dizer que elas estão erradas, e propor a Bíblia como solução. A parte de encontrar falhas nas teorias existentes até pode ser útil, mas a partir daí extrapolar que Deus criou o mundo apenas mostra a ignorância de quem propõe tal coisa. Porquê? Porque não se pode classificar como teoria científica afirmações que não são refutáveis—como “o mundo é assim porque Deus o criou”. Quando me mostrarem um modelo criacionista que possa ser posto à prova, aí conversamos. Até lá, creio que vou seguir a sugestão do Dawkins.